quarta-feira, agosto 06, 2025
IA quântica e a urgência de Keynes
“No longo prazo, estaremos todos mortos.” A frase de John Maynard Keynes, cunhada como crítica à passividade diante de problemas imediatos, nunca foi tão atual quanto agora, diante da ascensão da inteligência artificial quântica. Enquanto empresas e governos investem bilhões na corrida por sistemas capazes de realizar cálculos inatingíveis para computadores clássicos, a promessa de um futuro transformador convive com riscos que exigem atenção imediata. A IA quântica, embora ainda embrionária, já aponta para cenários em que a velocidade de processamento e a complexidade de decisões ultrapassam a capacidade humana de supervisão, abrindo brechas para ameaças como a quebra de sistemas de criptografia, ataques cibernéticos automatizados e até a perda de controle sobre máquinas autônomas.
O problema central não reside apenas na tecnologia, mas na velha conhecida ambição humana. A história mostra que raramente regulamos antes de inovar. Tratados de contenção nuclear só surgiram depois de Hiroshima; pactos ambientais só se consolidaram quando os efeitos das mudanças climáticas se tornaram inegáveis. No caso da IA quântica, seguir o mesmo padrão pode ser catastrófico. A lógica competitiva entre países e empresas empurra todos para uma corrida em que quem hesitar será superado. Nesse jogo, a prudência cede espaço à pressa, e a oportunidade de prevenir danos se estreita perigosamente.
Se Keynes estivesse vivo hoje, provavelmente insistiria que as soluções para o futuro só são possíveis se agirmos no presente. Não se trata apenas de estabelecer protocolos técnicos de segurança, mas de construir um arcabouço político e ético que impeça que o desenvolvimento da IA quântica ocorra em segredo ou sem fiscalização. Isso implica tratados internacionais vinculantes, auditorias em centros de pesquisa, ambientes de teste isolados e, sobretudo, transparência obrigatória. Esperar que tais medidas sejam discutidas apenas quando a tecnologia já estiver disseminada seria repetir o erro que Keynes tanto criticou: confiar que um equilíbrio futuro resolverá problemas urgentes que se agravam no agora.
O “longo prazo” de Keynes não é apenas uma previsão sobre mortalidade; é um aviso sobre a natureza das nossas escolhas. Se deixarmos a IA quântica amadurecer sem governança, corremos o risco de transformar essa tecnologia em um catalisador de crises que não poderemos controlar. A urgência, portanto, não está em temer a máquina, mas em conter a ambição humana que, historicamente, sempre avançou mais rápido do que nossa capacidade de regular. E é justamente porque, no longo prazo, todos estaremos mortos que precisamos agir enquanto ainda estamos vivos.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário