quarta-feira, agosto 30, 2006
Kalecki, Quesnais e o modelo Mundell-Fleming
Pode parecer estranho colocar lado a lado François Quesnay, Michał Kalecki e o modelo Mundell-Fleming. Afinal, estamos falando de teorias separadas por séculos e construídas a partir de visões bem diferentes da economia. Ainda assim, existe um ponto de contato interessante entre elas: o papel da demanda — especialmente a externa — na geração de renda.
Lá no século XVIII, Quesnay elaborou o famoso tableau économique, uma das primeiras tentativas de entender o funcionamento da economia como um sistema. Para ele, só a agricultura gerava excedente. O comércio e as manufaturas eram úteis, mas não criavam riqueza nova. Ainda assim, o comércio tinha um papel importante: permitir que esse excedente circulasse e fosse realizado — inclusive por meio das exportações.
Avançando para o século XX, Kalecki muda completamente o foco. Em vez de perguntar “de onde vem o excedente?”, ele pergunta “o que determina os lucros e a renda?”. A resposta dele é direta: os lucros dos capitalistas dependem dos próprios gastos deles, especialmente o investimento. Nesse contexto, as exportações entram como um elemento adicional de demanda. Quando aumentam, ajudam a elevar a renda e os lucros na economia.
Já o modelo Mundell-Fleming olha para a economia aberta de outro jeito. Ele mostra como políticas econômicas — fiscal e monetária — interagem com taxa de juros, câmbio e fluxo de capitais. Em um regime de câmbio flexível, por exemplo, uma expansão monetária pode levar à desvalorização da moeda, o que torna as exportações mais competitivas e aumenta a renda. Em outras palavras: o setor externo aparece como um canal importante de transmissão das políticas econômicas.
O ponto interessante é que, mesmo partindo de premissas muito diferentes, essas abordagens acabam convergindo em algo essencial: as exportações podem impulsionar a atividade econômica.
Mas é importante não exagerar essa convergência. Quesnay estava preocupado com o excedente agrícola; Kalecki, com a dinâmica da demanda e dos lucros; e o modelo Mundell-Fleming, com o funcionamento de curto prazo de economias abertas. Não são teorias equivalentes — e nem pretendem ser.
Ainda assim, colocá-las em diálogo ajuda a enxergar uma questão que continua atual: o crescimento econômico não depende apenas do que acontece dentro do país, mas também da sua inserção no cenário internacional.
terça-feira, agosto 29, 2006
Econom(an)ia
Econom(an)ia é mania de estudar economia.
Esta mania é típica dos cientistas econômicos que estão sempre estudando os temas econômicos procurando se atualizar e se aprofundar.
Esta mania é típica dos cientistas econômicos que estão sempre estudando os temas econômicos procurando se atualizar e se aprofundar.
terça-feira, maio 02, 2006
Kalecki e a jornada de trabalho.
Fazendo um estudo da dinâmica capitalista de Kalecki deparei-me com um achado deveras interessante.
Ao estudar as formas de distribuição de renda, Kalecki demonstra que no longo prazo e tendência é de que a produtividade aumente, fazendo com que os salários subam. Até aí ok, há uma lógica estabelecida, mas o que me interessou foi o segundo momento, ou seja, como há um crescimento da produtividade a longo prazo levando a um aumento nos salários, chegará um momento que os trabalhadores poderão rever as suas escolhas entre lazer e trabalho. Ou seja, os salários estarão num patamar ideal, num ponto em que o aumento da produtividade resultará em diminuição da jornada de trabalho.
Conclui-se que quanto maior a produtividade, maior é a possibilidade de se visualizar um salário ideal e uma redução na jornada de trabalho.
É claro que tudo isso não leva em conta o aumento da competitividade mundial, que faz com que o aumento da produtividade resulte em queda do preço (ou não) buscando conquistar mais mercados, fazendo com que os salários e a jornada de trabalho permaneçam os mesmos.
Mesmo assim, se levarmos em conta que a produtividade está crescendo num ritmo acelerado, pode-se inferir que esta produtividade venha resultar em bem-estar ao trabalhador após a queda de preços, desde que isso aconteça a nível agregado, uma vez que a queda de preço está diretamente relacionada com o aumento no salário real.
Ao estudar as formas de distribuição de renda, Kalecki demonstra que no longo prazo e tendência é de que a produtividade aumente, fazendo com que os salários subam. Até aí ok, há uma lógica estabelecida, mas o que me interessou foi o segundo momento, ou seja, como há um crescimento da produtividade a longo prazo levando a um aumento nos salários, chegará um momento que os trabalhadores poderão rever as suas escolhas entre lazer e trabalho. Ou seja, os salários estarão num patamar ideal, num ponto em que o aumento da produtividade resultará em diminuição da jornada de trabalho.
Conclui-se que quanto maior a produtividade, maior é a possibilidade de se visualizar um salário ideal e uma redução na jornada de trabalho.
É claro que tudo isso não leva em conta o aumento da competitividade mundial, que faz com que o aumento da produtividade resulte em queda do preço (ou não) buscando conquistar mais mercados, fazendo com que os salários e a jornada de trabalho permaneçam os mesmos.
Mesmo assim, se levarmos em conta que a produtividade está crescendo num ritmo acelerado, pode-se inferir que esta produtividade venha resultar em bem-estar ao trabalhador após a queda de preços, desde que isso aconteça a nível agregado, uma vez que a queda de preço está diretamente relacionada com o aumento no salário real.
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