sexta-feira, setembro 09, 2011

Análise de artigo quanto aos aspectos estatísticos

WOLZ, A; FRITZSCH, J; PENCÁKOVÁ, J. Structural social capital and economic performance: Findings of empirical farm data in the Czech Republic. 46 Annual Meeting of the Germain Association of Agricultural Economists (Gewisola) in Giessen, 4-6. October, 2006.

Na Alemanha Oriental, Hungria, Eslováquia e na República Tcheca a produção agrícola é dominada pelas grandes fazendas. Pode se observar nestes países uma dualidade, de um lado há as fazendas particulares e por outro as grandes fazendas corporativas. Em ambos os grupos há aquelas que são mais produtivas do que outras. Muitos fatores podem influenciar:
Sistema de financiamento rural pouco desenvolvido e a precária reestruturação das fazendas levam a um acesso limitado aos financiamentos devido a falta de lucratividade, problemas colaterais, riscos e incertezas. Similarmente, o setor agrícola tem sido caracterizado pela fraca estrutura de capital humano para gerenciamento das fazendas particulares, pelas rápidas mudanças na política agrícola e pela estrutura legal incompleta. Tem sido argumentado que o baixo nível de capital social tem conduzido a um baixo desempenho econômico. O foco da análise será verificar se o capital social constitui um fator adicional para o crescimento do bem-estar econômico.
Capital social pode ser definido como uma rede de relacionamentos de negócios, normas e crenças que facilitam o partilhamento de informações, tomada de decisões e ações coletivas. Incentivos, custos, lucros esperados são discutidos como temas centrais que motivam as pessoas a cooperarem. A hipótese básica referente ao impacto do capital social assume que o bem-estar dentro do grupo geralmente será aumentado, tendo como senso de os ganhos coletivos compensam as perdas em grupo.
Capital social consiste numa rede de relacionamentos informal e organizações formais usadas por pessoas e produtores para produzir bens e serviços para seu próprio consumo, troca ou venda.
Na análise pode ser usado um limitado campo de indicadores, e concentrados nos membros da organização formal.
Assume que os membros nas organizações podem aumentar o desempenho econômico. A hipótese é de que o bem-estar econômico dos produtores agrícolas, no mínimo em alguma extensão, será determinado pela sua afiliação em determinado grupo.
A amostra inclui 42 fazendas corporativas e 20 particulares, os dados são de 2002. Dez variáveis foram colocadas em seis categorias (trabalho, terra, capital, capital social, padrão legal e produtividade) analisando sua influencia no desempenho econômico. Como variável dependente foi usada a produção agrícola.
As variáveis foram mensuradas da seguinte forma:
Trabalho: foi mensurado como a soma da jornada de trabalho total anual calculada pelo número total de força de trabalho multiplicado por 2.000 horas no caso de trabalhadores em tempo integral e 1.000 no caso de trabalhadores em regime parcial. A média ficou em 148.000 horas para fazendas corporativas e 4.000 horas para fazendas particulares.
Terra: mensurou-se toda área utilizada pelas fazendas. As fazendas corporativas tiveram uma média de 1.723,5 há, enquanto que as fazendas particulares ficaram com uma média de 112 há.
Capital: foi mensurado através do valor anual de depreciação do capital fixo das fazendas.
Produtividade: Foi utilizado como proxy a colheita média de cereais. Sendo que a média para as fazendas corporativas ficou em 3,5 ton/há e em 3.8ton/há para as particulares. A diferença não se mostrou estatisticamente significante (Mann-Whitney-Test).
Capital social: A análise ficou restrita à forma estrutural, dessa forma cinco variáveis puderam ser analisadas. Com respeito as organizações formais, quatro diferentes tipos puderam ser analisadas: a) A câmara de Agricultura; b) organizações de lobbyng política; c) organizações profissionais; e d) Organizações de marketing. A pesquisa mostrou que as duas formas legal de fazendas tem se afiliado as estas organizações formais, sendo que as fazendas corporativas se associam em maior grau.
Os estudos se concentraram mais nos canais de marketing como uma boa proxy de indicação da habilidade dos gerentes de construir suas redes de relacionamentos promovendo melhora na situação econômica. Os dois canais de marketing estudados foram: 1) que trabalhava em conjunto através de membros voluntários e; 2) demais formas de marketing isolado. O canal de marketing 1 é o que mais se aproximava como proxy para o alto nível da capital social. A escolha do canal pelas fazendas não foram significativas estatisticamente ((Mann-Whitney-Test).
Forma legal: Foram incluídas tanto as fazendas corporativas (42) como as fazendas particulares (20) que responderam ao questionário. Para a análise de regressão as fazendas corporativas serão identificadas com 0 e as particulares com 1.
Desempenho Econômico: Foi utilizada a renda bruta das fazendas calculada pelo produto total.

Análise fatorial
O foco do artigo foi testar a influência de capital social na renda bruta agrícola como indicador de desempenho. Através da análise dos componentes principais com rotação Varimax e normalização Kaizer, quatro fatores puderam ser extraídos do conjunto de nove variáveis, explicando 79,2% do total de variância nas variáveis incluídas. Somente fatores com um autovalor maior do que 1 são usados na análise adicional.
Pela tabela 1 chega-se a conclusão que o fator 1 mostra as três variáveis que descrevem a função de produção clássica indicando os fatores terra, trabalho e capital. Dois fatores indicam aspectos parciais do capital social através dos canais de marketing.
A análise demonstrou que o tamanho da amostra não está relacionada com a afiliação em organizações formais, e portanto com um alto nível de capital social.
Como um passo final o escores fatoriais para os quatro fatores independentes foram computados para substituir as nove variáveis no modelo de regressão múltipla para testar se os dois fatores que representam o capital social tem efeitos significante sobre a renda agrícola bruta.

Análise de regressão múltipla
Foi introduzida uma variável dummy para representar a forma legal das fazendas. Os resultados mostraram a mensuração da determinação em 0,52, o que indica que o modelo explica um pouco mais da metade da variabilidade na renda agrícola bruta. Além disso demonstrou que as variáveis terra, trabalho e capital são significativas, bem como a produtividade. Já a forma legal não mostrou influência significante na renda agrícola bruta, não sendo possível concluir se as fazendas particulares são mais ou menos eficientes que as fazendas corporativas.
Por fim, conclui-se que o capital social representado pelo canal de marketing que trabalhava em conjunto através de membros voluntários tem impacto significante no desempenho econômico das fazendas.

No geral o artigo procurou demonstrar a importância do capital social para o desempenho econômico das fazendas, pode-se dizer que obtiveram sucesso nesse quesito, embora a questão de composição do capital social seja mais ampla.
Quanto à identificação do grau de importância do capital social para cada tipo de fazenda, a análise fatorial não se mostrou suficiente para indicar o caminho, embora tenha mostrado as variáveis de forma correta quanto à função de produção.

segunda-feira, agosto 01, 2011

Teorias de percepção e cognição

Goffman (1959) analisou o comportamento social como teatro. Para Goffman (1959), a aprendizagem social cria a disparidade entre as intenções do líder e o entendimento dos seguidores do que o líder está tentando fazer.
A vantagem no uso desta teoria está na sua aplicação dado o grande avanço na psicologia cognitiva e sua aplicação imediata em diagnósticos e em educação de liderança.

Theories attribution
Green e Mitchell (1979) formularam um modelo para estudar os processos de atribuição em líderes. O comportamento dos líderes é conseqüência da interpretação sobre o desempenho do subordinado. Meindl, Ehrlich e Dukerich (1985), juntamente com Pfeffer (1977) e Calder (1977), concordam que há uma tendência em atribuir mais ao subordinado à causa do que às circunstancias situacionais.

Information processing

Newell e Simon (1972); Lord (1976): é esperado que um líder dedique mais esforços para o desenvolvimento de uma orientação e definição do problema ou de grupo quando há falta de estrutura. Sugestões sociais e simbologia ganham maior importância na explicação da liderança se o enfoque baseado em processamento de informação e utilizado. Tanto a teoria como a evidencia mostram que as percepções dos líderes são baseadas largamente no reconhecimento espontâneo.

Open-systems Analysis
Em sistemas abertos, o efeito dos resultados (output) no ambiente servem como feedback e novos elementos de entrada (inputs).
Katz e Kahn (1966): Níveis de energia podem ser aumentados através da seleção de líderes e seguidores com maior motivação individual ou pelo crescente reforço advindo dos outputs.

“Incorporating macro and micro levels”
Bowers e Seashore (1966): four-factor theory
Osborn e Hunt (1975): adaptive-reactive model que incorpora macro-variáveis como restrição do ambiente ou demanda organizacional como antecedente do comportamento dos líderes.
Bass e Valenzi (1974): Open-sistem model of leader-follower relationships, influência e resultado para fora do ambiente. O modelo demonstra que o líder será mais efetivo se perceber que possui mais informação e poder do que seus subordinados.
Jacobs e Jaques (1987) formularam uma teoria que explica os requerimentos necessários para liderança nos diferentes níveis hierárquicos.

Rational-Deductive Approach
Vroom e Yetton (1974): formas de decisão que o líder deve tomar dada situação, seja em grupo ou individualmente.

Hybrid Explanations
Explanações cognitivas, comportamentais e interacionais são requisitos para entender a relação entre líder e seguidor e os resultados que advem dessa relação.
Gilmore, Beehr e Richter (1979): a qualidade do trabalho dos subordinados é baixo quando o líder tem iniciativa, mas pouca consideração.
Winter (1978) desenvolveu um modelo complexo que combina aspectos de traços, reforço, comportamento, abordagens cognitivas e de retroalimentação (feedback loops) do sistema de análise.
Johnston (1981): holistic leader/follower grid
Tomassini, Solomon, Romney e Krogstad (1982) construiram um modelo cognitivo/comportamental no qual a influência dos líderes se interaciona com o comportamento do subordinado no trabalho e identifica as situações que circunscrevem o que o líder pode fazer.

Transformational Leadership
Holander ( 1986) Liderança sendo contingenciada pela condição de traços e situações envolvendo uma transação ou troca entre o líder e o liderado. Nesta visão, líderes trocam promessas de recompensas e benefícios por comprometimento do liderado.
Downton (1973), Burns (1978): o líder questiona o liderado no sentido de que o liderado transcenda seu interesse próprio em prol do interesse do grupo, organização ou sociedade.
Bass (1985) propôs que o líder transformacional aumenta os efeitos do líder transacional em termos de esforços, satisfação e efetividade dos subordinados.

Tichy e Devanna (1986) descrevem que a natureza hibrida do líder transformacional não é devido ao carisma, mas que é um processo comportamental capaz de ser aprendido e gerenciado.

Estudos do fator analítico feitos por Bass (1989), Hater e Bass (1988), Seltzer, Numerof e Bass (1989) sugerem que o líder transformacional pode ser conceitualmente organizado através de quatro dimensões: líder carismático, líder inspiracional, estimulação intelectual e considerações individualizadas.

O líder transformacional está muito próximo do tipo de líder que as pessoas tem em mente quando descrevem um líder ideal.

Teorias e modelos de processo interativo em liderança

Fulk e Wendler (1982) e Greene (1975) concordam que se a performance dos subordinados (seguidores) é boa, então o líder terá mais consideração com eles, e que por conseguinte, terão mais consideração para com os líderes. Se os seguidores não tem uma boa performance, então os líderes procurarão tratar o problema com comportamentos estruturantes, com isso a satisfação dos seguidores não aumenta.

Modelo Multiple-linkage

O modelo de Yukl (1971) propõe que os esforços dos subordinados e sua habilidade em fazer as tarefas, juntamente com o papel do líder, os recursos disponíveis e a coesão dos grupos, tudo isso contribui para moderar os efeitos do comportamento do líder sobre os resultados do grupo.

Modelo Multiple-screen

Fiedler e Leister (1977) tentam explicar a relação entre a inteligência do líder e sua performance no grupo.

Vertical-dyad Linkage

A díade vertical do chefe e subordinado é característica de uma ligação interativa de influência mútua. Graen (1976) enfatiza o relacionamento entre o líder e cada seguidor individual, muito mais do que do líder com o grupo como um todo. Segundo Vecchio e Gobdel (1984), como conseqüência, os membros dentro do grupo tem um melhor desempenho e ficam mais satisfeitos do que se estivesse em outro grupo.

Exchange theories

Baseado na hipótese de que a interação social representa uma forma de troca (GERGEN, 1969; HOMANS, 1958; MARCH e SIMON, 1958; THIBAUT e KELLEY, 1959). As interações são contínuas enquanto cada membro achar que as trocas sociais são mutualmente recompensadoras.
De acordo com Jacobs (1970), o grupo fornece status e estima ao líder em troca de suas contribuições originais para a obtenção de objetivos do grupo.

Teorias comportamentais

Enfatizam o comportamento do subordinado quando da punição ou recebimento da recompensa devido ao seu desempenho.

sexta-feira, julho 08, 2011

Como o conhecimento sobre segurança e a aprendizagem organizacional estão relacionados

Conhecimento organizacional como um fenômeno social e coletivo, pode ser baseado na noção de prática e idéia de comunidade de prática, um construto conceituado por vários autores como um agregado informal, definido não somente por seus membros, mas também compartilhado em rotinas na qual eles completam seus trabalhos e interpretam eventos.
Os membros de uma comunidade, de fato, aprendem a cultura da segurança e prática a partir da participação em comunidades de prática do presente e do passado, conforme fizeram em sua educação e treinamento.
Nesta conversação algumas vozes tem prioridade sobre outras e estas são então o conjunto de vozes que determina a qualidade da ação tomada.
Comunidade de prática, de fato, constitui uma teia de relações que vai além das limitações de organizações individuais, fornecendo um canal para mudanças no estoque de conhecimento organizacional.

GHERARDI, S., NICOLINI, D. The Organizational Learning of Safety in Communities of Practice. Journal of management inquiry, v. 9, n. 1, p. 7-18, 2000.

Razões que explicam o não uso do termo aprendizagem organizacional na literatura antropológica

Os antropólogos fornecem argumentos para usar os dois conceitos de forma sinônima: culturas são organizações que agem para perpetuação da vida humana e deles próprios.
A falta de atenção para a questão da organização social e mesmo para o aprendizado individual tem razões históricas específicas, que variam entre as escolas de pensamento. Os antropólogos sociais (estruturalistas) dão ênfase nas variáveis macrosistemicas, enquanto que aprendizagem é considerada uma variável “muito micro” para ser levada a sério.
A aprendizagem é um conceito que aparece principalmente na antropologia cognitiva ou psicológica. E é aplicada individualmente e não em grupos.
Os novos evolucionistas mantiveram alguns elementos do seu vocabulário, onde o equivalente mais próximo à “aprendizagem organizacional” seria provavelmente “avanço adaptável”, embora definido em termos dos resultados do que em processos.
Atualmente o tópico sobre transformação cultural tem recebido mais atenção, e o conceito de translação cultural (útil para entender o que é aprendizado organizacional) tem sido bastante usado.
Esta capacidade de poder com paradoxos surge sempre como um atributo de sucesso das elites. Um ponto de interesse adicional é de que as elites podem ter sucesso tanto impedindo mudanças como as promovendo. Em ambos os casos, a elite culta tem um papel crucial nas práticas e ações da comunidade local, induzindo aprendizagem organizacional.
Muito da aprendizagem organizacional aparece sob os auspícios do tradicionalismo e não do modernismo.
Alguém pode reclamar de que a maioria da aprendizagem organizacional objetiva proteger e revitalizar a ordem institucional existente, e não muda-la, como é o caso dos projetos de modernização ou revoluções.
É geralmente assumido de que a relação entre aprendizagem organizacional e mudanças institucionais devem ser positivas: aprendizagem permite mudanças, mudanças permitem aprendizagem. Embora esta hipótese seja verdadeira ao nível organizacional, pode ser incorreta ao nível institucional.
Mudanças culturais ou simbólicas tendem a ficar para trás mesmo que haja uma grande mudança política radical, e a “revolução cultural” parece ter destruído muitos povos e um grande número de artefatos culturais sem se importar com o sistema de significados simbólico.
O que causa mudanças na ordem institucional? Acontece como resultado de mudanças na definição de sociedade e na condição humana, e embora uma mudança planejada seja colocada em prática, ela não poderá ser controlada.
Como as idéias viajam?
Na definição de aculturação, mostra que “difusão... frequentemente acontece sem a ocorrência de qualquer contato entre as pessoas”. Na versão popular na teoria gerencial via marketing, a ênfase era ainda sobre artefatos (produtos de consumo ou tecnologias), mas o espraiamento de inovações conduz mais e mais para o aumento das idéias, até mesmo ideologias. Este processo é sem dúvida uma preocupação central em toda questão de aprendizagem organizacional.
No modelo de translação, o espraimento no tempo e espaço para qualquer coisa – reivindicações, ordens, artefatos, mercadorias – está nas mãos das pessoas; cada uma dessas pessoas podem agir em diferentes caminhos, deixando a ficha cair, ou modificando, desviando, ou traindo, ou adicionando para, apropriação.
Esta riqueza de significados, invoca associações com ambos movimentos e transformação, aceitando tanto os objetos lingüísticos e material, fazendo translação em conceito chave para entender aprendizagem organizacional.
Rituais organizacionais e cerimônias objetivam à criação do mesmo tipo de experiência total, a qual pode fazer avançar a aculturação de forma muito mais eficiente que qualquer transferência de conhecimento abstrato.

CZARNIAWSKA, Barbara. Anthropology and Organizational Learning, In: DIERKES, M. et al. Organizational learning and knowledge, Oxford: Oxford University Press, 2001. cap. 5, p. 118-136.

Natureza complexa e holística da aprendizagem nas organizações

É importante notar que o amplo contexto sócio-cultural ao nível da organização, indústria e país tem um papel determinante nas atitudes gerenciais desenvolvidas através da aprendizagem, educação e desenvolvimento. Nesse contexto, aprendizagem pode ser definida como a liberação de conhecimento através de novas aprendizagens e autoquestionamento.
O grau de poder e controle das organizações encoraja a manutenção da dependência dos indivíduos em relação aos recursos da organização de forma a reforçar o aprendizado. Este controle não é só sobre como os gerentes aprendem, mas também o que eles aprendem.
Nas organizações onde o encorajamento é genuíno, há maior probabilidade que os gerentes sejam autodependentes e que tomem suas decisões de aprender baseado no seu julgamento sobre as áreas que precisam ser desenvolvidas. Nestas organizações, os gerentes estão mais dispostos por possuir metas de aprendizagem com vistas ao desenvolvimento pessoal, que por sua vez será importante para a sua empregabilidade.

Naquelas organizações onde os gerentes aprendem de forma a satisfazer os requerimentos, essencialmente eles não aprendem, eles meramente seguem as regras do jogo.
A necessidade de auto-atualização é estritamente conectada com a necessidade de pertencimento e de ações que são socialmente aceitáveis.
A aprendizagem individual é significantemente afetada por práticas organizacionais e as práticas de aprendizagem gerencial refletem as orientações das organizações sobre o que aprender.
A aprendizagem gerencial é um reflexo da identidade institucional dos gerentes, de forma que eles buscam responder aos interesses locais com comportamentos automáticos que mantém o status quo.
A dominação do isomorfismo institucional, particularmente no contexto de mudança, é uma forma de encorajamento para que os gerentes copiem ou imitem outros.
A aprendizagem individual não é vista como impactante na aprendizagem organizacional, na maioria das vezes porque ela é limitada dento da estrutura dominante existente, a qual reforça seu status quo.

ANTONACOPOULOU, E.P. The Relationship between Individual and Organisational Learning: New Insights from Managerial Learning Practices, Management Learning, v. 37, n. 4, p. 455–473, 2006.

Como as organizações devem ser uma vez que as mudanças são constituições da realidade?

A chave para entender a mudança como processo em andamento é prestar atenção no caráter transformacional da ação humana ordinária.
A mudança não deve ser pensada como uma propriedade da organização. Mas a organização deve ser entendida como uma propriedade emergente da mudança.
Enquanto a organização objetiva a retenção da mudança, ela também é o resultado de tal mudança.
O volume de pesquisa tem sido orientado através da providência da análise sinóptica da mudança organizacional. Do ponto de vista da análise sinóptica, as mudanças são como eventos consumados cuja chave das características e variações, e das causas antecedentes e conseqüentes, precisam ser exploradas e descritas. O conhecimento é gerado por “mudanças” aproximadas vindas de fora e tipicamente, toma forma de estágio modelo no qual a entidade que é submetida à mudança é mostrada por ter estados distintos em diferentes pontos no tempo.
Dado sua natureza sinóptica, a mudança não faz justiça aos micro processos contínuos que permeiam as trajetórias descritas, ela não é eficiente na captura das distintas características da mudança – que é fluída, insistente, contínua e indivisível.
Procura-se entender mudança pela transformação dela em uma sucessão de posições ... um objeto ocupa esta posição agora, outra posição mais tarde, e assim por diante.
Só uma percepção direta da realidade habilitará alguém a alcançar um vislumbre de suas características mais salientes – ela está em constante mudança de sua textura, ela é continuamente indivisível, é fluxo do mesmo com diferença todo tempo.
O conhecimento direto (intuição) e o conhecimento conceitual são complementares. Um fornece o que o outro não possui.
A mudança, sinopticamente explicada ex post facto é “experienciada” por praticantes como um desdobramento do processo, um fluxo de possibilidades e uma conjunção de eventos e interações contínuas ocorrendo no tempo.
As categorias cognitivas institucionalizadas são extraídas através de indivíduos-em-ação, mas no processo, generalizações estabelecidas podem ser suplementadas, corroídas, modificadas ou, em algum grau, interpretadas muitas vezes de maneira imprevisível... Isso acontece porque embora uma organização fixe uma definição de suas representações (categorias cognitivas genéricas) para determinadas finalidades, não tem o controle relativo à definição total sobre elas.
A habilidade humana de reflexividade e reinterpretação e a estrutura radial de categorias fornecem para a rede de crenças dos atores uma reconfiguração contínua.

As organizações estão em um estado de permanente transformação porque a ação situada dentro delas é inerentemente criativa.

Mudanças nas organizações costumeiramente ocorrem localmente quando certos indivíduos refletem sobre suas circunstâncias e experiências e decidem intervir para mudar as políticas e sistemas organizacionais.

TSOUKAS, H; CHIA, R. On organizational becoming: Rethinking organizational change. Organization Science,. v. 13, n. 5, p. 567-582, 2002.

Aprendizagem organizacional tanto dentro como entre organizações

Aprendizagem organizacional tanto dentro como entre organizações
O principal objetivo é delinear uma teoria de aprendizagem organizacional dinâmica, propondo um arcabouço que integre processos de aprendizagem intraorganizacional e interorganizacional de exploitation e exploração.
A Teoria da Aprendizagem interorganizacional tem sido tratada como uma forma de desenvolvimento da literatura da aprendizagem organizacional através da conceitualização como outra unidade de análise, um esforço que tem conquistado grande espaço durante os últimos dez anos.
A primeira idéia central na literatura de aprendizagem organizacional é de que aprendizagem organizacional é experiencial.

A segunda é de que a aprendizagem é um processo que relativamente altera o caráter do comportamento de forma permanente.

A terceira hipótese é de que a aprendizagem organizacional basicamente é aprendizagem individual se manifestando no contexto social.

A quarta idéia é de que a aprendizagem é organizada através da existência de procedimentos padrão de operação, práticas e outros papéis organizacionais.

Os processos de aprendizagem organizacional estão relacionados com comportamentos que são dinâmicos e que possuem algum tipo de característica que o identifique como organizacional. A hipótese implícita é um entendimento de organizações como processos em constante mudança. O que concerne a aprendizagem como ocorrência através da interação social em andamento.

Uma organização não consegue simultaneamente explorar ou tirar vantagem (exploit).
Tipicamente, a literatura de aprendizagem organizacional assume que organizações aprendem através da interação com seu ambiente, conceituado no senso geral de que o ambiente se consiste de outras organizações.
Aprendizagem interorganizacional é definida como aprendizagem entre organizações onde há (inicialmente) um pequeno grau de interdependência.

A razão pela qual a aprendizagem intraorganizacional e entendida como processo de tirar vantagem pode ser encontrado na aprendizagem intraorganizacional que é formalmente controlada por um grupo dominante, o qual geralmente tem o direito legitimado para selecionar, promover, demover e demitir os membros da organização.

Conflitos interorganizacionais que são devidos a uma base de poder ambígua, pode, por sua vez, ser funcional quando eles forçam a colaboração entre as partes para reverem criticamente suas ações passadas, resultando possivelmente em uma mudança de comportamento em benefício da exploração mútua.

O processo de aprendizagem envolve quatro transformações interelacionadas que ocorrem tanto entre como dentro de organizações: acting, opening-up, experimenting and focusing.
Acting é o primeiro status no processo de aprendizagem organizacional.
Opening-up não é uma resposta automática para mudanças externas no ambiente, mas é resultado de uma negociação interna, onde a antiga forma de ação é desafiada e pressionada a se tornar obsoleta.
A possibilidade de focusing ou opening-up está correlacionada com a institucionalização do poder. Nos casos em que o poder é altamente institucionalizado, opening-up é difícil, porém focusing deve encontrar menos dificuldade.
HOLMQVIST, M. A Dynamic Model of Intra-and Interorganizational Learning. Organization Studies, v.. 24, n. 1, p. 95-123, 2003.

terça-feira, julho 05, 2011

Comunidades de prática

Pode se considerar comunidades de prática como agentes que promovem aprendizagem organizacional ao permitir o compartilhamento de experiências entre os seus membros. Essas experiências resultam em maior integração e mudanças legitimadas na organização. Czarniawaska (2001), utilizando o conceito de enculturação, demonstra que a aprendizagem se torna contínua através da condução dos novos membros ao aprendizado através de rituais de aceitação e adequação ao novo espaço de trabalho. Os novos membros contribuem para a aprendizagem através da aceitação das regras e da imposição da sua percepção junto à comunidade que integra (GHERARDI e NICOLINI, 2000).

CZARNIAWSKA, Barbara. Anthropology and Organizational Learning, In: DIERKES, M. et al. Organizational learning and knowledge, Oxford: Oxford University Press, 2001. cap. 5, p. 118-136.

GHERARDI, S., NICOLINI, D. The Organizational Learning of Safety in Communities of Practice. Journal of management inquiry, v. 9, n. 1, p. 7-18, 2000.

Aprendizagem organizacional

Aprendizagem organizacional enquanto termo único ou teoria ainda não está bem definida. São vários os estudos em diversas áreas do saber que buscam aprender e apreender em torno do que é aprendizagem e como ela acontece nas organizações. Weick e Westley (2004) enfatizam a necessidade de conceituação das organizações como caminho para entender melhor o processo de aprendizagem. Prange (2001) alerta para o uso utilitário da pesquisa sobre aprendizagem organizacional, o que não colabora para o desenvolvimento de uma teoria em torno do tema.
Os estudos em torno do tema são variados e convidativos, a cada leitura é possível acrescentar mais uma peça ao quebra-cabeça, contribuindo para a construção de um arcabouço de conhecimento e de definições gerais. Em pesquisa desenvolvida no site de busca google a simples digitação do termo “aprendizagem organizacional” retorna mais de 60.000 resultados. Refinando mais a pesquisa, procurando apenas documento “pdf” tem como resultado quase 4.500 documentos. Usando o termo em inglês e pesquisando apenas documentos em formato “pdf”, encontra-se 102.000 resultados!
Ou seja, há uma grande empolgação em torno do tema, demonstrando sua importância acadêmica.

Argyris e Schon (1978) apud Antal et al (2001) procuram conceituar o termo aprendizagem organizacional como uma metáfora para processos, no qual os membros de uma organização são responsáveis pela aprendizagem, uma vez que os mesmos estão em constante contato com as rotinas, desafios e problemas em seu local de trabalho. A cada novidade, os membros contribuem para a aprendizagem organizacional através do compartilhamento da informação. Para Weick e Westley (2004), a aprendizagem está diretamente relacionada com o grau de relacionamento entre os indivíduos a organização e o ambiente. Antonacopoulou (2006), define aprendizagem como processo de busca por novidades e reflexão.
Pode-se afirmar, de modo geral, que a aprendizagem acontece em ambientes que favoreçam o contato com desafios e proporcione a interação entre membros e organização. Quanto maior o envolvimento dos membros com a organização, maior e mais rápido tende a ser a aprendizagem organizacional.


As organizações aprendem mais ou menos dependendo da cultura. Segundo Weick e Westley (2004), aprendizagem com enfoque na cultura acontece a partir de práticas grupais. Mudanças organizacionais só ocorrem quando há uma cultura que incorpora os processos de aprendizagem como rotinas, aceitando o seu papel baseado nas transformações que ocorrem tanto na esfera intra como interorganizacional ((TSOUKAS e CHIA, 2002). Para Antonacopoulou (2006), deve se levar em conta o contexto sócio-cultural, que mostram sinais de mudança que devem ser incorporados à organização. As organizações estão inseridas em um ambiente que se transforma de forma contínua e irreversível, cabe a elas o papel de se adaptar e contribuir para as mudanças, isso só acontece levando em conta a cultura e sua capacidade de transformação.

Referências
ANTAL, Berthoin; DIERKES, M; CHILD, J; NONAKA, I. Organizational Learning and Knowledge: reflections on the Dynamics of the Field and Challenges for the future. In: DIERKES, M. et al. Organizational Learning & Knowledge, New York: Oxford, 2001, p. 921-939.

ANTONACOPOULOU, E.P. The Relationship between Individual and Organizational Learning: New Insights from Managerial Learning Practices, Management Learning, v. 37, n. 4, p. 455–473, 2006.

PRANGE, Christiane Prange. Aprendizagem Organizacional: Desesperadamente em busca de teorias? In. Easterby-Smith, M. Burgoyne, J. Araujo, L. Aprendizagem Organizacional e Organização de Aprendizagem. São Paulo: Atlas, 2001.

TSOUKAS, H; CHIA, R. On organizational becoming: Rethinking organizational change. Organization Science,. v. 13, n. 5, p. 567-582, 2002

WEICK, Karl; WESTLEY, Francis. Aprendizagem Organizacional: confirmando um oxímoro. In: CLEGG, Stewart R.; HARDY, Cynthia; NORD, Walter R. (orgs.) Handbook de estudos Organizacionais. São Paulo: Atlas, 2004. Vol. 3, p. 361-388.

sexta-feira, maio 20, 2011

O papel das Instituições de Ensino Superior por Tragtenberg, Motta e Lobrot

As Instituições de Ensino Superior são analisadas em algumas leituras feitas a partir de trabalhos de Motta (1990 e 1981), Tragtenberg (1992 e 2004) e citações desses autores sobre Lobrot. A proposta deste ensaio é buscar através das leituras a questão das IES e inferir a partir da vivência e experiência em IES pública e privada.
A universidade passou por transformações desde o século XIX para poder se adaptar às necessidades do sistema capitalista, para Tragtenberg (2004, pg 12) a universidade,

no século XIX, período do capitalismo liberal, ela procurava formar um tipo de “homem” que se caracterizava por um comportamento autônomo, exigido por suas funções sociais: era a universidade liberal humanista e mandarinesca. Hoje, ela forma mão-de-obra destinada a manter nas fábricas o nepotismo do capital; nos institutos de pesquisa, cria aqueles que deformam dados econômicos em detrimento dos assalariados; nas suas escolas de direito, forma os aplicados de legislação de exceção; nas escolas de medicina, aqueles que irão convertê-la numa medicina do capital ou utiliza-la repressivamente contra os deserdados do sistema. Em suma, trata-se de “um complô de belas almas” recheadas de títulos acadêmicos, de doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for.

Pode-se inferir que a universidade está formando conforme pede a demanda, principalmente no que tange à universidade brasileira, mais as particulares do que as públicas, pois o mercado de trabalho exige qualificação para fazer frente às novas tecnologias. O título ajuda muito no caso brasileiro, uma vez que cada vez mais exige-se que o candidato apresente uma formação superior, embora esta formação superior nem sempre seja testada.
No caso da docência Tragtenberg (2004, pg 13) enfatiza que,

a transformação do professor “cão de guarda” em “cão pastor” acompanha a passagem da universidade pretensamente humanística e mandarinesca à universidade tecnocrática, na qual os critérios lucrativos da empresa privada funcionarão para a formação das fornadas de “colarinhos brancos” rumo às usinas, aos escritórios e às dependências ministeriais. É o mito da assessoria, do posto público, que mobiliza o diplomado universitário.”

Nas IES particulares o que importa é taxa de sucesso, ou seja, o professor deve ensinar mas não deve reprovar caso o aluno não aprenda, o importante é colocar mais mão-de-obra no mercado. O professor nesse caso faz o seu papel de “cão pastor” para manter-se no emprego. Muitos alunos iniciam o curso de Economia com a pretensão de fazer concurso, ou seja, o aprendizado não importa, a meta é passar em concurso público independente da área, a motivação mor é a renda. Em resumo, “o mundo da realidade concreta é sempre muito generoso com o acadêmico, pois o título acadêmico torna-se o passaporte que permite o ingresso nos escalões superiores da sociedade: a grande empresa, o grupo militar e a burocracia estatal. O problema da responsabilidade é escamoteado, a ideologia do acadêmico é não ter nenhuma ideologia, faz fé de apolítico, isto é, serve à política do poder” (TRAGTENBERG 2004, p.17).
Segundo Tragtenberg (2004, p.14) “a universidade reproduz o modo de produção capitalista dominante não apenas pela ideologia que transmite, mas também pelos servos que ela forma”, destacando que a manutenção do sistema capitalista depende em grande parte da “qualidade” da formação do estudantes. A escola “conduz a um condicionamento mais longo num quadro uniforme e máxima divisão do saber, que não visa a formação de algo, mas sim a acumulação mecânica de noções ou informações mal digeridas.” (TRAGTENBERG 2004, p.48).
O professor tem um papel essencial na formação e difusão do conhecimento conforme Tragtenberg (2004, p.16), “o problema significativo a ser colocado é o nível de responsabilidade social dos professores e pesquisadores universitários. A não-preocupação com as finalidades sociais do conhecimento produzido se constitui em fator de ‘delinquencia acadêmica’ ou de ‘traição do intelectual’.” Aqui entra a questão da extensão universitária, o conhecimento adquirido junto à comunidade para poder inferir e contribuir para o crescimento da sociedade. A alternativa “é a criação de canais de participação real de professores, estudantes e funcionários no meio universitário, que se oponham à esclerose burocrática da instituição” (TRAGTENBERG 2004, p.18).
A contratação de professores difere entre universidades públicas e privadas, mas conforme Tragtenberg (2004, p.73),

A figura da cooptação aparece na universidade de forma aberta quando o recrutamento de professores e funcionários se dá por relações pessoais e afinidades emocionais. A forma de cooptação dissimulada aparece pelo sistema de concursos, que realizam obedecendo a todos os critérios formais burocráticos, porem o vencedor já está escolhido a priori.

Quando a contratação acontece de forma “acertada” contribui para o corporativismo, resultando em continuação de situações que não contribuem para a evolução do ensino. Esta prática é mais presente nas Universidade Públicas, mas também está presente em menor grau na universidade particular. A diferença é que na particular o professor vai ter mostrar um bom desempenho, enquanto que na pública vai depender de seu relacionamento com seus colegas.
Motta (1990, p. 48), acrescenta que “o docente acha-se em situação semelhante à do aluno que percorre a infinidade de séries e níveis que vão da pré-escola à universidade e, cada vez mais, às pós-graduações exigidas por um mercado onde a oferta de pessoal formalmente educado é cada vez maior”. A formação do professor é feita visando ao mercado e não a sala de aula. A maioria dos mestrados e doutorados enfatizam a pesquisa e esquecem do ensino, formando pesquisadores em vez de professores.
A questão da burocracia é enfatizado por Mota (1990, p. 67),

Nas universidades, o saber é burocratizado. De forma muito semelhante ao que ocorre na empresa, procura-se definir com precisão as esferas de competência dos engenheiros, dos sociólogos, dos cientistas políticos, dos filósofos, dos administradores, dos economistas, dos psicólogos, e assim por diante. [...] essa departamentalização do saber corresponde à lógica da divisão do trabalho industrial, que de resto se torna a lógica da divisão do trabalho social.

A questão que fica é como pode ser mudado este panorama da educação voltada para o mercado de trabalho, voltada para atender as necessidades do capital? Como transformar a universidade em um centro de ensino humanizado e humanizante, que permita que os estudantes possam refletir a sua realidade e contribuir para sua transformação?

Referências bibliográficas

TRAGTENBERG, M. Burocracia e Ideologia. 2. ed. São Paulo: Ática, 1992.

TRAGTENBERG, M. Sobre educação, política e sindicalismo. São Paulo: Editora UNESP, 2004.

MOTTA, C.F.P. Organização e Poder: Empresa, Estado e Escola. São Paulo: Atlas, 1990.

sexta-feira, maio 13, 2011

A utopia na forma de redes

As redes são formas de relacionamento entre entidades que facilitam várias transações e decisões. Muitos estudos colocam a formação de redes como uma nova forma de desenvolvimento econômico em que as entidades envolvidas atuarão de forma efetiva na construção de um novo arcabouço institucional. A formação de redes se tornou a utopia necessária frente ao desmoronamento das teorias comunistas que apregoavam a transformação da sociedade. Será analisado nas leituras de Fleury e Ouverney (2007), Loiola e Moura (1996) e Junqueira (2006) a questão das redes como um novo processo de desenvolvimento econômico baseado na relação governamental com a sociedade civil.

Para Börzel (1997) apud Fleury e Ouverney (2007, p.16)
redes de políticas [...] são um conjunto de relações relativamente estáveis, de natureza não hierárquica e independente, que vinculam uma variedade de atores que compartilham interesses comuns em relação a uma política e que trocam entre si recursos para perseguir esses interesses comuns, admitindo que a cooperação é a melhor maneira de alcançar as metas comuns.

Para Fleury e Ouverney (2007, p.25), “as principais características dessas redes são a horizontalidade e interdependência entre seus múltiplos nódulos ou participantes, o que as distingue de outros formatos de gestão de políticas, como a contratação e as parcerias.” Dessa forma, “o poder de cada membro dentro da rede vai depender da importância de suas funções para ela (ou seja, o controle de recursos), bem como das ligações de cada organização com um universo mais amplo de organizações.” (FLEURY E OUVERNEY 2007, p.27). Na visão de Loiola e Moura (1996, p.56)

Redes de movimento, redes sociais e redes de solidariedade são expressões que se vinculam aos estudos efetuados no campo dos movimentos sociais. Nesse caso, a rede corresponde a articulação/interações entre organizações, grupos e indivíduos vinculados a ações/movimentos reivindicatórios (ONGs, associações, sindicatos, etc), visando à mobilização de recursos, ao intercâmbios de dados e experiências e à formulação de projetos e políticas.

Segundo Fleury e Ouverney (2007, p. 09), “as transformações recentes no papel do Estado em suas relações com a sociedade impõem novos modelos de gestão que comportem a interação de estruturas descentralizadas e modalidades inovadoras de parcerias entre estatais e organizações empresariais ou sociais.” Dentro dessa perspectiva,

as redes têm sido vistas como a solução adequada para administrar políticas e projetos onde os recursos são escassos e os problemas, complexos; onde existem múltiplos atores envolvidos; onde há interação de agentes públicos e privados, centrais e locais, bem como uma crescente demanda por benefícios e participação cidadã. (FLEURY E OUVERNEY 2007, p.10)

Segundo Moura (1997) apud Fleury e Ouverney (2007, p.12), “a abordagem de redes como expressão dos novos arranjos organizacionais que emergem da atualidade indica o esgotamento da capacidade de integração das instituições representativas tradicionais, bem como da eficácia das organizações burocráticas e do modelo de planejamento centralizado.” Dessa forma, conforme Fleury e Ouverney (2007, p. 12),

a formação de estruturas policêntricas que configuram uma nova esfera pública plural resulta de um deslocamento não só do nível central de governo para o local, mas também da esfera do Estado para a sociedade [...] o poder local se torna protagonista da articulação entre organizações governamentais, empresariais e sociais, ampliando a rede de ação pública por meio da inclusão de novos atores políticos.

A participação da população na “formulação e gestão das políticas sociais cria as condições para o desenvolvimento da cidadania e a emancipação dos setores populacionais marginalizados, ao mesmo tempo em que transforma as estruturas autoritárias do Estado, gerando formas de co-gestão pública.” Fleury e Ouverney (2007, p. 34)
Com as transformações econômicas impostas pela política neoliberal,

fica evidente a incapacidade dos governos centrais para dar uma resposta aos problemas sociais, especialmente no contexto atual de redução do papel das burocracias e de escassez de recursos governamentais. A complexidade dos problemas sociais, a diversidade de atores e interesses conflitantes aí envolvidos, a crescente mobilização da sociedade civil para cobrar atenção diferenciada que respeite as diferenças sociais, a organização de um setor não-governamental que atua cada vez mais no campo das políticas sociais, a intensificação da ação social das empresas, tudo isso são fatores que impulsionam e explicam o florescimento de redes de políticas sociais. (FLEURY E OUVERNEY 2007, p.32)

Surge dessa forma, a configuração de um novo processo de transformação social dado que, conforme Fleury e Ouverney (2007, p. 35):

As redes de políticas... constituem-se, pois, num instrumento fundamental para a gerência das políticas sociais em contextos democráticos, permitindo a construção de novas formas de coletivização, socialização, organização solidária e coordenação social. E, nesse sentido, transcendem o papel de mero instrumento gerencial, na medida que ensejam relações baseadas na confiança (capital social) e processos horizontalizados e pluralistas.

Loiola e Moura (1996, p.59) afirmam que com “o crescente recurso à inter(ação) em rede surge como uma estratégia para enfrentar um ambiente de turbulências e incertezas, caracterizado ainda pela forte competitividade e por crises e movimentos de reestruturação, tanto nos estudos da esfera pública como na dos negócios.”
Para Junqueira (2006, p.196), “os impasses vividos pelo setor público levam à busca de novas saídas, e uma das alternativas privilegiadas para enfrentar os problemas sociais que afetam o conjunto da população são as organizações sem fins lucrativos.” Dessa forma ‘p. 200 A transferência do poder de decisão de políticas sociais para usuários dos serviços, desde que sob controle do Estado, constitui um processo em que o Estado,sem abdicar de suas competências, devolve para a sociedade aquilo que lhe é de direito, o que se denomina devolução social (grifo do autor) (JUNQUEIRA, 2006, p.200).
A questão que se insere é sobre como esta nova reorganização da sociedade pode ser efetivada, dado que os interesses inerentes ao mercado são voltados para individualismo, em detrimento da cooperação.

Referências bibliográficas

FLEURY, S. OUVERNEY, A.M. Gestão de Redes: a estratégia de regionalização da política de saúde. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007.

LOIOLA, E. MOURA, S. Análise de redes: uma contribuição aos estudos organizacionais. In: FISCHER, T (Org.) Gestão contemporânea: cidades estratégicas e organizações locais. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1996.

JUNQUEIRA, L. Organizações sem fins lucrativos e redes sociais na gestão das políticas sociais. In: CAVALCANTI, M (Org.) Gestão social, estratégias e parcerias. São Paulo: Saraiva, 2006.

sexta-feira, março 11, 2011

Ainda sobre mais-valia flexível

Este é um conceito em constante construção. Sempre que surgem novos elementos, eles serão acrescentados para dar maior sustentação teórica ao conceito.
Desta vez, coloca-se a questão da mais-valia relativa e seu imbricamento com a mais-valia absoluta.
A configuração das relações de trabalho tem mudado muito nos últimos quarenta anos. Passamos de um processo produtivo padronizado, baseado no fordismo/taylorismo, para um processo mais dinâmico, baseado no toyotismo.
O trabalhador começou a ter funções que ocupam não só a sua força física, mas também intelectual e psíquica. Se no processo produtivo anterior dava para separar a forma de exploração no trabalho, se era através da expropriação da mais-valia relativa ou da mais-valia relativa, no processo atual esta exploração se tornou mesclada numa só, chamada aqui de mais-valia flexível (flex surplus-value).
O trabalhador passou a ser explorado para além do tempo dedicado ao trabalho delineado em contrato, agora ele está inserido em um patamar em que todo o tempo deve ser dedicado ao trabalho. Esta situação é fruto do envolvimento compulsório do trabalhador com as metas da empresa capitalista. Envolvimento compulsório, dado que ele precisa do emprego, e para tal deve se submeter às exigências da organização.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

O processo de globalização e dependência em Celso Furtado: Ele estava certo?

Celso Furtado juntamente com Prebisch e Fernando Henrique Cardoso são os teóricos do processo de dependência econômica da América Latina. Seus estudos foram importantes para entender o papel das economias ditas subdesenvolvidas na economia mundial. Celso Furtado buscou dentro da percepção histórica da macroeconomia a explicação para problemas econômicos e suas possíveis soluções. Seus estudos são de grande valia para entender o desenvolvimento econômico e suas nuances, principalmente no que tange aos países da América Latina.
A crescente busca por mercado consumidor, por parte das empresas multinacionais, faz com que haja uma nova política na qual os governos periféricos “redistribuem” renda, principalmente por meio de programas de combate à pobreza e melhoria do crédito. Resultado: crescente endividamento das famílias.
A questão ambiental permeia a discussão em Furtado (1996, p. 12), segundo o qual “a evidência à qual não podemos escapar é que em nossa civilização a criação de valor econômico provoca, na grande maioria dos casos, processos irreversíveis de degradação do mundo físico.” O que demonstra uma antecipação sobre a situação atual em que a preocupação ambiental toma conta dos noticiários e das estratégias governamentais.
Para Furtado (1996, p.14) o “subdesenvolvimento está ligado a uma maior heterogeneidade tecnológica, a qual reflete a natureza das relações externas.” Relações estas estabelecidas entre países ditos “cêntricos” e países em desenvolvimento, nas quais as relações de troca tendem a ser mais proveitosa para os países ricos, que possuem maior poderio tecnológico. E que por isso possui uma maior excedente com o qual,

cria a diferença fundamental e dá origem à linha divisória entre desenvolvimento e subdesenvolvimento é a orientação dada à utilização do excedente engendrado pelo incremento de produtividade. A atividade industrial tende a concentrar grande parte do excedente em poucas mãos e a conservá-lo sob controle do grupo social diretamente comprometido com o processo produtivo. (FURTADO, 1996, p.23)

O consumo é descrito em Furtado (1996, p.24) como a forma de inserção dos países subdesenvolvidos em outro degrau de desenvolvimento, “é pelo lado da demanda de bens finais de consumo que esses países se inserem mais profundamente na civilização industrial.” Furtado (1996, p.45) também enfatiza que

o dinamismo econômico no centro do sistema decorre do fluxo de novos produtos e da elevação dos salários reais que permite a expansão do consumo de massa. Em contraste, o capitalismo periférico engendra o mimetismo cultural e requer permanente concentração de renda a fim de que as minorias possam reproduzir as formas de consumo dos países cêntricos.

A questão da entrada de empresas multinacionais em países subdesenvolvidos é tratada por Furtado (1996, p.25) como “a rápida industrialização da periferia do mundo capitalista, sob a direção de empresas dos países cêntricos, que se observou a partir do segundo conflito mundial, corresponde a uma terceira fase na evolução do capitalismo industrial.” Ou seja, a expansão das economias “cêntricas” encontrou alternativa na conseqüente entrada de empresas multinacionais nos países em desenvolvimento, os quais, dada a necessidade de celeridade em seu processo de crescimento, se sujeitou a aceitar estas empresas e suas exigências. Dessa forma, segundo Furtado (1996, p.26) “a formação, a partir da segunda metade dos anos de 1960, de um importante mercado internacional de capitais constitui o coroamento desse processo, pois permite às grandes empresas liberarem-se de muitas limitações criadas pelos sistemas monetários e financeiros nacionais.” Mas, como tanto a estabilidade quanto a expansão dessas economias dependem fundamentalmente das transações internacionais e estas estão sob o controle das grandes empresas, as relações dos Estados nacionais com estas últimas tenderam a ser relações de poder. Dessa forma, “uma grande empresa que orienta seus investimentos para a periferia está em condições de aumentar sua capacidade competitiva graças à utilização de uma mão-de-obra mais barata em termos dos produtos que lança no mercado” (FURTADO, 1996, p.51). Esta combinação entre custos baixos proporcionado pela mão-de-obra barata e a relação com as instituições governamentais fizeram com que as empresas multinacionais obtivessem grande vantagem comparativa em relação às empresas nacionais. Neste sentido, Furtado (1996, p. 67) deixa claro que

parece inegável que a periferia terá crescente importância nessa evolução, não só porque os países cêntricos serão cada vez mais dependentes de recursos naturais não reprodutíveis por ela fornecidos, mas também porque as grandes empresas encontrarão na exploração de sua mão-de-obra barata um dos principais pontos de apoio para se firmar no conjunto do sistema.”

Com este tipo de relação conforme Furtado (1996, p.79), “o processo de acumulação tende a ampliar o fosso entre um centro em crescente homogeneização e uma constelação de economias periféricas, cujas disparidades continuam a se acentuar.”
Para Furtado (1996, p. 87), “a nova orientação do desenvolvimento teria de ser num sentido muito mais igualitário, favorecendo as formas coletivas de consumo e reduzindo o desperdício provocado pela extrema diversificação dos atuais padrões de consumo privado dos grupos privilegiados.” A conclusão geral que surge é que a hipótese de extensão ao conjunto do sistema capitalista das formas de consumo que prevalecem atualmente nos países cênctricos não tem cabimento dentro das possibilidades evolutivas aparentes desse sistema. Pois conforme Furtado (1992, p. 08) “quanto mais alto o nível de vida das gerações presentes, maiores serão os problemas que deverão enfrentar as futuras.” Enquanto Furtado (1992) defende que o consumo interno deve ser resultado do aumento da massa salarial, a políticas governamentais procuram atingir esta meta através da transferência de renda e aumento do crédito.
A questão a ser discutida é sobre as conseqüências dessa política governamental para aumentar o consumo. Até quando as famílias irão suportar o seu endividamento?

Referências bibliográficas

FURTADO, C. O mito do desenvolvimento econômico. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

FURTADO, C. O Subdesenvolvimento revisitado. Economia e Sociedade, n. 1, p. 5-19, ago. 1992.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

A questão da agricultura em Rondônia vis a vis políticas públicas: análise a partir de Bourdieu

Através das leituras em Bourdieu (1998; 2005) e utilizando o conceito de campo, será demonstrada a relação dos agricultores familiares com seu meio, buscando entender a questão da cultura local.
A colonização de Rondônia se acelerou concomitantemente com a construção da Transamazônica, que permitiu a fixação de famílias ao longo da rodovia através de políticas governamentais que incentivavam o povoamento da região. Rondônia possui duas levas de imigrantes distintas, ao sul estão imigrantes oriundos do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e, em menor parte, de São Paulo, ao norte estão imigrantes oriundos da Região Nordeste do Brasil. A região Norte de Rondônia foi colonizada por nordestinos devido à incentivos para povoamento da Região, enquanto o Sul teve seu desenvolvimento pautado pela busca por novas oportunidades agrícolas e se desenvolveu posteriormente à colonização do Norte.
Enquanto o Sul de Rondônia possui uma agricultura mais avançada, no Norte predomina a agricultura de subsistência, fato este que caracteriza as discrepâncias entre as culturas de colonização. Enquanto que no Sul os agricultores se organizam e conseguem, dessa forma, pressionar as instituições públicas por melhorias, no Norte ainda não há esta organização, tornando mais difícil seu desenvolvimento. A destinação da produção também é diferenciada, no Sul ela é voltada para o mercado local, nacional e internacional, no Norte ela é voltada para consumo local.
As políticas públicas desenvolvidas no Norte de Rondônia procuram desenvolver uma agricultura sustentável, ou seja, uma agricultura baseada na produção com manutenção do meio ambiente, para isso recorre-se aos sistemas agroflorestais.
Para análise da forma de colonização e principalmente para entender o processo de produção de Rondônia utilizando o conceito de campo, é necessário explicitar aqui como ele é definido segundo Bourdieu (2005). Em termos analíticos, um campo pode ser definido como uma rede ou uma configuração de relações objetivas entre posições (de domínio ou subordinação). Estas posições estão objetivamente definidas, em sua existência e nas determinações que impõem sobre seus ocupantes, agentes ou instituições, por sua situação presente e potencial na estrutura de distribuição de espécies de capital cuja posse comanda o acesso a vantagens específicas que estão em jogo no campo, assim como por sua relação objetiva com outras posições. Nesse contexto pode-se estabelecer características que denotam campos diferentes entre as regiões Norte e Sul de Rondônia, enquanto aquela ainda se mantém em um sistema primitivo de produção, aceitando as determinações de comando vindo de fora, esta se estabelece como uma unidade na qual as decisões são tomadas endogenamente, repercutindo em ações junto às instituições públicas quanto as suas políticas.
Outra característica enfatizada por Bourdieu (2005) na questão do conceito de campo é a de que os participantes de um campo, indústria, comércio ou serviços, buscam constantemente introduzir diferenciação em seus produtos, buscando se estabelecer no mercado com mais força de que seus rivais, ou seja, como espaço de forças potenciais e ativas, o campo é também um campo de lutas que tende a preservar ou transformar a configuração destas forças. As estratégias dos agentes dependem de sua posição no campo, isto é, na distribuição de capital específico e da percepção que tenham do campo segundo o ponto de vista que adotem sobre o campo. Neste sentido, a Região Norte tende a reproduzir uma competição intra-campo que procura manter o status quo existente, sem que esta competição faça diferença no estabelecimento de metas entre os integrantes do campo, cada qual procura produzir o suficiente para si sem se importar com a reprodução ampliada do capital. A Região Sul por outro lado, procura a inserção no mercado capitalista através da participação de seus membros de forma coletiva. A competição existe como forma de fortalecer o grupo, transformando em resultado comum toda as externalidades criadas pelas inovações que venham a ser introduzidas.
Para Bourdieu (2005), o sistema escolar, o Estado, a igreja, os partidos políticos ou os sindicatos são campos. Em um campo, os agentes e as instituições lutam constantemente, de acordo com as regularidades e regras constituídas. Os que dominam um campo dado estão em posição de fazê-lo funcionar para sua conveniência, mas sempre devem enfrentar a resistência e as pretensões dos dominados. As regiões Norte e Sul de Rondônia possuem instituições que promovem políticas similares com resultados diferentes, as demandas são diferenciadas, fazendo com que cada região reaja conforme as forças de poder estabelecidas.
Segundo Bourdieu (2005), as práticas moldam uma economia, isto é, seguem uma razão imanente que não pode restringir à razão econômica, pois a economia das práticas pode ser definida em referência a um amplo espectro de funções e finalidade. Neste sentido, a Região Norte deve ser analisada em diversos aspectos, atentando para as suas características culturais e forças presentes. É necessário buscar através de pesquisas in loco a vocação da Região procurando respeitar o que for encontrado e transformar a realidade através de políticas que se adéquam a um novo panorama, diferente de outras regiões.
A grande questão a ser discutida é como fazer com que os indivíduos componentes dessa Região estabeleçam novas diretrizes para a sua manutenção e crescimento econômico. Como transformar sem que haja uma ruptura, a qual, como já foi tentada por outras políticas públicas, não se mostrou eficaz.


Referências bibliográficas

BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

BOURDIEU, P. El propósito de la sociologia reflexiva (Seminário de Chicago) In:
BOURDIEU, P. WACQUANT, L. Uma invitación a la sociologia reflexiva. México; Siglo XXI Ed, 2005.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

A questão da redução sociológica em Guerreiro Ramos e sua dificuldade de aplicação na visão de Tragtenberg e Motta

Para entender o conceito de redução sociológica é preciso entender que consciência crítica, conforme Ramos (1965, p. 61), “surge quando um ser humano ou um grupo social reflete sobre tais determinantes e se conduz diante deles como sujeito. Distingue-se da consciência ingênua que é puro objeto de determinações exteriores.” Os determinantes nesse caso devem ser percebidos através de seus fatores, levando a aquisição da consciência crítica. Nesse contexto, Ramos (1965, p. 81), explicita que,

No domínio restrito da sociologia, a redução é uma atitude metódica que tem por fim
descobrir os pressupostos referenciais, de natureza histórica, dos objetos e fatos da realidade social. A redução sociológica, porém, é ditada não somente pelo imperativo de conhecer, mas também pela necessidade social de uma comunidade que, na realização de seu projeto de existência histórica, tem de servir-se da experiência de outras comunidades.

A realidade de cada comunidade é criada a partir de experiências particulares, as quais moldam uma cultura diferenciada. Os estudos realizados em outras comunidades servem como apoio ao entendimento geral em prol de uma teoria unificada, mas não servem como modelo a ser aplicado sem que se faça uma reflexão in loco do objeto estudado. Ramos (1965) mostra pelas discrepâncias entre a realidade dos Estados Unidos e Brasil, as quais diferem quanto ao enfoque dos estudos sociológicos, ou seja, o que é aplicado lá como estudo e teoria, não reflete as condições e realidade de pesquisa aqui no Brasil. Nesse sentido, Ramos (1965, p. 89), destaca que:

É certo que, na sociedade brasileira, se verificam situações que os sociólogos norte-americanos estudam à luz de conceitos como ‘controle social’, ‘assimilação’, ‘acomodação’, ‘conflito’, ‘isolamento’, ‘contato’ e, portanto, esses conceitos são aqui aplicáveis. Mas o importante é assinalar que tais situações, na etapa atual do Brasil, não têm a mesma relevância que nos Estados Unidos.”

Um importante aspecto em Ramos (1965, p.112), é a lei do comprometimento, a qual ressalta que “nos países periféricos, a idéia e a prática da redução sociológica somente pode ocorrer ao cientista social que tenha adotado sistematicamente uma posição de engajamento ou de compromisso consciente com seu contexto.” A posição de engajamento é,

baseada numa crítica radical, ou seja, numa reflexão sobre os fundamentos existenciais da ciência em ato ou da produção cientifica [...] é também a condição indispensável para que o cientista desses países se libere da ‘servidão intelectual’, transcenda a condição de copista e repetidor e ingresse num plano teórico eminente. (RAMOS, 1965, p. 113)

Ramos (1965) aponta para a importância de originalidade nos estudos para a transformação da realidade local. É buscando pesquisar com vistas ao futuro que o cientista consegue vislumbrar a redução sociológica, contribuindo para a não assimilação automática do saber estrangeiro.
A necessidade de se elaborar novos estudos com premissa de redução sociológica tem como pré-requisito a libertação de esquemas pré-concebidos aplicados nas universidades brasileiras. Só com mudanças na forma de ensino, impregnada de uma sistematização burocrática, voltada para o mercado capitalista, é possível superar a mesmice. Nesse sentido Tragtenberg (2004, p.12) defende que a universidade,

forma mão-de-obra destinada a manter nas fábricas o nepotismo do capital; nos institutos de pesquisa, cria aqueles que deformam dados econômicos em detrimento dos assalariados; nas suas escolas de direito, forma os aplicados de legislação de exceção; nas escolas de medicina, aqueles que irão convertê-la numa medicina do capital ou utiliza-la repressivamente contra os deserdados do sistema. Em suma, trata-se de “um complô de belas almas” recheadas de títulos acadêmicos, de doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for.

Lobrot (1973, apud Motta, 1990, p. 48), destaca a questão do ensino sistemático sem reflexão, uma vez que,

o docente acha-se em situação semelhante à do aluno que percorre a infinidade de séries e níveis que vão da pré-escola à universidade e, cada vez mais, às pós-graduações exigidas por um mercado onde a oferta de pessoal formalmente educado é cada vez maior. É desnecessário insistir no papel dos exames e das notas, que se tornam necessárias à medida que todo o sistema é disfuncional. Não havendo qualquer possibilidade de um acompanhamento personalizado, o professor nada pode fazer além de tentar julgar por exames e notas.

Além disso, Tragtenberg (2004) também destaca a questão da universidade como uma “multiversidade” a qual está à venda quando oferece vários cursos com a simples motivação capitalista. A universidade também se torna uma multiversidade quando suas pesquisas são totalmente enviesadas para atender o mercado, esquecendo o caráter substancial inserido em sua missão, que é de retornar à sociedade os frutos de seu trabalho.
A questão a ser discutida é como as pesquisas no Brasil que podem obter um objetivo mais original baseado na redução sociológica, dado que as universidades possuem um viés para o mercado.

Referências bibliográficas

GUERREIRO RAMOS, ALBERTO. A redução sociológica. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1965.

MOTTA, C.F.P. Organização e Poder: Empresa, Estado e Escola. São Paulo: Atlas, 1990.

TRAGTENBERG, M. Sobre educação, política e sindicalismo. São Paulo: Editora UNESP, 2004.

terça-feira, janeiro 18, 2011

As organizações o ambiente e o meio-ambiente: as (in)certezas do futuro

As organizações são produto do meio ou o seu fim? O meio-ambiente vem passando por transformações resultantes da exploração desenfreada dos recursos naturais do planeta. A busca pelo lucro traz conseqüências visíveis, como aquecimento global, queimadas, enchentes dentre outras catástrofes. As organizações são atingidas por novas demandas originadas pela preocupação ambiental, que resultam em novos produtos e atitudes.
Analisar-se-á através das Teorias Organizacionais as reações das organizações dentro do panorama atual para seu fortalecimento e manutenção.
Donaldson (1998) demonstra que na escola clássica havia uma única estrutura organizacional que seria altamente efetiva para organizações de todos os tipos. Perrow (1967) ressalta que quanto mais codificado o conhecimento utilizado na organização e quanto menos exceções encontradas nas operações, mais o processo decisório poderia ser centralizado. Para Thompson (1967) as organizações tentam isolar suas principais tecnologias de produção num sistema fechado para emprestar-lhes eficiência, defendendo-as do meio ambiente. Lida-se com perturbações externas por meio de projeções, relatórios e outros mecanismos. Estudos mais recentes mostram novos enfoques sobre a organização, dentre elas a teoria da contingência descrita em Hinings (2003), a qual discute a questão organizacional levando em conta fatores como estratégia, tamanho, incerteza com relação às tarefas e tecnologia e incerteza ambiental. A teoria da contingência estrutural parte de um enfoque positivista para analisar o comportamento das organizações. Conforme Donaldson (1998), a teoria da contingência estabelece que não há uma estrutura organizacional única que seja altamente efetiva para todas as organizações. A otimização da estrutura variará de acordo como determinados fatores, tais como a estratégia da organização ou seu tamanho. Assim, a organização ótima é contingente a esses fatores, que são denominados fatores contingenciais.
A questão estrutural está relacionada com a especialização, padronização, centralização e formalização que auxiliam na produção gerencial coerente. Essas características organizacionais, por sua vez, refletem a influência do ambiente em que a organização está inserida. Assim, para ser efetiva, a organização precisa adequar sua estrutura a seus fatores contingenciais e assim ao ambiente. Para Donaldson (1998), a estrutura da organização é um conjunto recorrente de relacionamentos entre os membros da organização. Burns e Stalker (1961) destacam que quando uma organização enfrenta um ambiente estável, a estrutura mecanicista é mais efetiva; mas onde a organização enfrenta um alto grau de mudança tecnológica e de mercado, uma estrutura orgânica é necessária. Woodward (1965) defende a tecnologia como chave explicativa da estrutura organizacional. Chandler (1962) mostra que a estratégia determina a estrutura. Uma estratégia funcional ajusta-se a uma estratégia não diversificada, mas não se ajusta a uma estratégia diversificada em que uma estrutura divisional é requerida para o gerenciamento efetivo da complexidade de produtos e mercados muito diferentes.
A teoria institucional, por sua vez, demonstra que as organizações adotam estruturas e sistemas mais para ganhar legitimidade do que melhorar sua eficiência como ditado pelo senso de contingência. Para Aldrich (1979), as principais forças que as organizações devem levar em consideração são as outras organizações. As organizações não competem somente por recursos e clientes, mas por poder político e legitimação institucional, por adequação social, assim como por adequação econômica.
Segundo Selznick (1957) institucionalização é um processo. É algo contínuo na organização, refletindo a trajetória da organização, seus indivíduos, os grupos que foram criados e a forma como se adaptou ao ambiente. Institucionalizar é criar valor além dos requerimentos técnicos.
Laurence e Lorsh (1967) determinaram que a taxa de mudança ambiental afeta a diferenciação e a integração da organização. Para Donaldson (1998) a inovação ambiental leva a organização a aumentar seu grau de inovação pretendida, a qual é causa imediata da adoção de uma estrutura orgânica. Dessa forma a estrutura é causada diretamente por um fator interno e apenas indiretamente pelo ambiente. Ambos os fatores interno e externo são considerados contingenciais, mas uma afirmação mais parcimoniosa da teoria da contingência estrutural precisaria referir-se apenas ao fator interno. Portanto, muito dos fatores contingenciais da estrutura, tais como tamanho ou tecnologia, são internos à organização, ainda que reflitam o ambiente na forma de tamanho da população ou tecnologias comercialmente disponíveis. Assim, conquanto seja correto incluir fatores ambientais como contingências que moldam a estrutura, uma explicação suficiente pode ser obtida considerando-se apenas fatores internos como contingências. À medida que as organizações procuram inovar em produtos, serviços ou processos produtivos, as tarefas se tornam mais incertas.
Pfeffer e Salancik (1978) defendem que organizações dependem das condições de seu ambiente, por isso um entendimento completo sobre organizações depende do estudo da “ecologia das organizações”. Segundo Ranson, Hinings e Greenwood (1980) duas características do ambiente deve ser levado em conta na formulação da estrutura organizacional: as características socioeconômicas das infraestruturas e o ambiente institucional. Na estrutura socioeconômica devem ser considerados os aspectos físicos (ambiente geográfico e logística); econômicos (mercado, nível de emprego, tipos de indústrias e comércio; e os aspectos sociais (padrão demográfico, classe e padrão étnico). Segundo Yuchtman e Seashore (1967), Aldrich (1972) e Benson (1975) a oferta de recursos para a organização muda com o tempo, forçando uma adaptação em seus departamentos, decisões e procedimentos. Para Parsons (1953) as organizações operam em diferentes setores funcionais, sendo legitimada por valores diferenciados, exibem diferentes padrões de adaptação e são governadas por diferentes padrões de códigos e normas. Segundo Skowroneck (1982), a escolha atual e suas possibilidades dependem das restrições impostas e condicionadas por escolhas passadas. O enfoque em sistemas tende a compreender o comportamento como uma reflexão das características do sistema social contendo uma série de processos que são externos e restringem os atores. Enfatizando que cada ação advém do entendimento de cada indivíduo tem de sua ação e de outros, o conjunto de ação de referência resulta da restrição na qual o indivíduo constrói socialmente a sua realidade. O ambiente organizacional precisa ser concebido não somente como o local de oferta de recursos e processo de produção, mas também como uma fonte de entendimento para os membros das organizações (SILVERMAN, 1971).
Há uma tendência à homogeneização das organizações conforme destacam DiMaggio e Powell (2005), com destaque ao isomorfismo coercitivo, que resulta tanto de pressões informais exercidas sobre as organizações por outras organizações das quais elas dependem, e pelas expectativas culturais da sociedade em que as organizações atuam. Seguindo esta linha, Meyer e Rowan (1977) destacam que as organizações se tornam cada vez mais homogêneas dentro de determinados domínios e cada vez mais organizadas em torno de rituais de conformidade com as instituições maiores. Ao mesmo tempo as organizações estão cada vez menos determinada estruturalmente pelas restrições impostas por atividades técnicas e cada vez menos integradas por controles de resultados. Na medida que a mudança organizacional é algo não planejado e continua sendo fortemente apoiada por grupos que desejam influenciá-la, a atenção deveria ser direcionada a duas formas de poder: Conforme March e Simon (1958), a primeira é o poder de estabelecer premissas, definir normas e padrões que moldam e canalizam comportamentos. A segunda, conforme Domholf (1979), é o ponto de intervenção crítica em que as elites definem modelos apropriados de estrutura e política organizacional que permanecem inquestionados nos anos que se seguem.